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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

PATRIMÔNIO CULTURAL DA UMBANDA EM RISCO

Casa onde foi fundada a Umbanda, em São Gonçalo, será demolida





Foi no imóvel — que ocupava o centro de uma chácara, no início do século 20 —, que Zélio Fernandino de Moraes, então com 17 anos, dirigiu a primeira sessão da Umbanda.

A estrutura metálica já está pronta para receber o telhado do novo galpão que vai ocupar o número 30 da Rua Floriano Peixoto, em Neves, São Gonçalo. Dentro do terreno, uma casinha centenária aguarda a demolição marcada, segundo o proprietário, ainda para esta semana. Poderia ser uma simples obra, não fosse um detalhe: a casa rosa, com a pintura já castigada pelos anos, é a última testemunha do nascimento da umbanda.

Foi no imóvel — que ocupava o centro de uma chácara, no início do século 20 —, que Zélio Fernandino de Moraes, então com 17 anos, dirigiu a primeira sessão da religião. Era 16 de novembro de 1908. A umbanda é a única manifestação religiosa 100% brasileira.

— A demolição nos deixa muito decepcionados, pois perdemos uma referência da chegada da mensagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas — diz Pedro Miranda, presidente da União Espiritista de Umbanda do Brasil, em referência à entidade que orientou Zélio a fundar a religião.

Espíritos tristes

A notícia também surpeendeu a mãe de santo Lucília Guimarães, do terreiro do Pai Maneco, em Curitiba, Paraná. Na década de 1990, ela veio ao Rio para pesquisar as origens da religião.

— Imagino que até os espíritos estejam tristes. É uma pena — lamenta ela.
Há mais de cem anos com a família de Zélio, o imóvel onde surgiu a umbanda foi vendido recentemente para o militar Wanderley da Silva, de 65 anos, que pretende transformar o local em um depósito e uma loja.

— Eu nunca soube que a casa tinha essa história. Mas agora já comprei, investi, não posso deixar de demolir — explica-se.

Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), nunca houve um pedido de tombamento do imóvel. A antiga casa de Zélio também não é protegida pelo governo estadual ou pela Prefeitura de São Gonçalo.

De acordo com a última avaliação do IBGE, feita no Censo 2000, o Brasil tem quase 400 mil umbandistas. A religião está em todos os estados do país e também no Uruguai, Paraguai, Argentina, Portugal, Espanha e Japão.

‘Tudo acabou’




O terreiro de Zélio de Moraes — que recebeu o nome de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade — funcionou por pouco anos em São Gonçalo. Os primeiros umbandistas mudaram-se logo para o Rio de Janeiro.

Primeiro, o centro funcionou na Rua Borja Castro, na Praça Quinze. A rua foi extinta, na década de 1950, para a construção da Perimetral. Dali, foram para a Avenida Presidente Vargas. O imóvel também foi demolido, dessa vez para dar lugar ao Terminal Rodoviário da Central do Brasil.

Uma nova mudança e mais uma demolição. A casa 59 da Rua Dom Gerardo, em frente ao mosteiro de São Bento, virou um estacionamento.

— Tudo acabou, eram prédios muito antigos. Lamento que o último registro também vai desaparecer. Mas o mais importante é que os ensinamentos do meu avô se perpetuem — pediu a neta de Zélio, Lygia Cunha, que hoje preside a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. O terreiro agora funciona em uma sede própria, em Cachoeiras de Macacu, no interior do estado.

Capela de São Pedro


Antes de ser vendida, a casa onde nasceu a Umbanda abrigou uma capela católica. A última moradora do imóvel, uma descendente de Zélio que é muito católica, cedeu o espaço para os devotos. Quem administra a igrejinha — que também mudou de endereço — é dona Geraldina dos Santos, de 74 anos.
— Não tenho preconceito, não. Todos somos filhos de Deus. Se a religião nasceu lá, a casa devia ser preservada. É importante — disse.

Fonte:http://www.paimaneco.org.br

domingo, 20 de março de 2011

HERANÇA QUE NÃO CALA: TERREIRO FILHOS DE OBÁ... A EXPOSIÇÃO COMO FORMA DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO AFRO-PATRIMONIAL

Autoria:
João Paulo Cardoso da Silva
Graduando em Museologia da UFS
E-mail: João-paulo-cardoso@hotmail.com
Cláudio de Jesus Santos
Formando em Museologia pela UFS
Foi-se o tempo em que os bens culturais, produzidos pelos negros, eram considerados coisas
de preto, pois foram colocados em exposição nos museus etnográficos europeus como elementos demonstrativos de inferioridade cultural. Exemplo de que isso vem mudando, são os trabalhos produzidos no Brasil, a fim de valorizar e preservar o patrimônio afro-brasileiro, ações que podem ser melhor entendidas no campo da Educação afro-patrimonial. É dentro desta perspectiva, no campo da educação patrimonial, que analisaremos a exposição HERANÇA QUE NÃO CALA: TERREIRO FILHOS DE OBÁ, realizada pelos alunos do Curso de Museologia do 5º período como pré-requisito de avaliação para a disciplina Museografia III, coordenada pela Professora Bartolimara Daltro. O trabalho tenciona abordardos resultados alcançados com a exposição e a sua contribuição para uma possível aproximação do Campus de Laranjeiras da Universidade Federal de Sergipe e a comunidade laranjeirense.

Vale lembrar que essa é uma das ações promovidas pelo curso de Museologia, sendo desenvolvida como parte integrante do processo de formação dos seus discentes, já tendo em seu histórico a primeira atividade desse cunho, realizada pela turma pioneira 2007/1 com a exposição LARANJEIRAS EM VERSOS, CORES E PATRIMÔNIO, orientada pela Professora Drª. Rita Maia, no período 2009/1.

Tais atividades, realizadas pelo Núcleo de Museologia, vem demonstrando o compromisso com o objetivo do curso, o de “formar profissionais para atuarem no desenvolvimento dos processos de musealização em todas as instituições comprometidas com a preservação e a divulgação do patrimônio cultural” (GUIA ACADÊMICO 2007, p. 9).

1 - TERREIRO FILHOS DE OBÁ: UMA BREVE APRESENTAÇÃO

O Terreiro “Filhos de Obá” se destaca por ser considerado um terreiro-matriz, pois dele foram originados vários outros centros em Laranjeiras. Fundado por Maria Joaquina, escrava africana que veio da cidade de Obá (nagô), o terreiro não tem nenhum documento que possa comprovar a quanto tempo existe. Mas, segundo os atuais responsáveis, e os relatos dos habitantes mais antigos do município, o centro tem muito mais de 100 anos. Quando foi criado, o terreiro era somente Nagô. Mas, a partir do momento em que o babalorixá Alexandre virou líder da sociedade, atualizou a tradição inicial com as outras nações africanas (jeje, ketu, angola, entre outras).

Em 1910, Joaquina fundou a Sociedade de Culto Afro-brasileiro Filhos de Obá, que só foi reconhecida como entidade civil em 1947, quando o então substituto de Joaquina, Alexandre José da Silva, seu afilhado, registra em cartório o seu centro de culto, cuja finalidade era “praticar a caridade, desenvolver o lado espiritual dentro dos conceitos dos rituais afrobrasileiros,
e beneficiar todos os necessitados dentro e fora da sede” (DANTAS, 1988, p. 122). Ao registrar os “Filhos de Obá” como instituição, Alexandre tentava escapar das repressões sofridas pelas perseguições policiais (décadas de 30 e 40) que atingiram vários terreiros da cidade.

Alexandre tinha somente 13 anos quando assumiu os cuidados da sociedade, em 17 de janeiro de 1977 e foi durante sua liderança que o centro mais cresceu e teve representatividade na cidade. Ficou no comando até sua morte. Com o falecimento do babalorixá1, a sociedade ficou sem funcionar até 1993, quando a sobrinha e equedi2 Marieta Santos Chagas da Rocha assumiu a direção. Durante o período do fechamento da sociedade, o terreiro continuou a funcionar normalmente sob a orientação de “Dona Cecilinha”, até sua morte no final dos anos 80. Atualmente, quem dirige o centro é a ialorixá3 Ginalva Rocha dos Santos.


2 - A EDUCAÇÃO AFRO-PATRIMONIAL E A EXPOSIÇÃO COMO MÉTODO
PARA O SEU DESENVOLVIMENTO

As questões pertinentes a preservação do patrimônio cultural sempre foi uma preocupação constante e marcante dentro do campo da ciência museológica, podendo ser melhor compreendida na caracterização do fato museológico, o qual Waldisa Russio define como sendo “a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da Realidade à qual o Homem pertence e sobre a qual tem o poder de agir” (1990, p.7). É importante salientarmos que a noção de “Objeto” explicitada por Russio refere-se a todos os bens culturais produzidos e transformados pelo homem, não se prendendo a uma visão reducionista do conceito.

Diante dessa relação, torna-se importante ressaltar que a expressão Educação Patrimonial vem
se tornando cada vez mais usual na Museologia, sendo utilizada muitas vezes como a sua “porta de entrada” para o desenvolvimento dos seus trabalhos, uma vez que o seu objetivo é preservar. Nesse sentido, vale lembrar que, não foi por acaso que o 1º Seminário organizado para discutir o desenvolvimento das ações educacionais voltadas para o uso e apropriação dos bens culturais e a sua proposta metodológica se deu no âmbito do Museu Imperial de Petrópolis em 1983, no Rio de Janeiro (HORTA, 1999).

A partir do Seminário realizado vários trabalhos vêm sendo elaborados, no sentido de dar continuidade as discussões para o aprimoramento dos recursos metodológicos utilizados para a preservação, identificação e valorização do Patrimônio Cultural através da Educação Patrimonial, conceito o qual Maria de Lourdes Parreiras Horta define como,

(...) um instrumento de “alfabetização cultural” que possibilita ao indivíduo fazer leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórico-temporal em que está inserido. Este processo leva ao reforço da auto-estima dos indivíduos e comunidades e a valorização da cultura brasileira, compreendida como múltipla e plural (1999, p.6).

Por meio dessa definição e entendendo que a metodologia da Educação Patrimonial pode ser aplicada a qualquer evidencia material, a fim de alfabetizar culturalmente o individuo, aumenta-se a dificuldade dessa alfabetização tornando-se mais complexa quando tratamos da cultura material pertencentes a grupos étnico-racialmente excluídos historicamente, grupos que sofreram e ainda sofrem perseguições, algo que pode ser percebido principalmente no trato com as suas heranças, as quais segundo Raul Lody sempre foram:

(...) comodamente vistas como secundárias e inferiores, (...) ficaram caracterizadas, em especial as de função ritual religiosa, genericamente como fetiches ou objetos de feitiçaria. Essas categorias, abastecidas de elementos da dominação moral cristã, delimitam a cultura material de sofisticados grupos sociais como dos candomblés, xangôs, casas mina-jejê e mina-nagô (2005, p.21).

Partindo da necessidade da distabuzação (CORRÊA, 150), do esclarecimento e da mudança desse pensamento construído sob os arquétipos históricos do negro enquanto escravo, é que torna-se necessário explorar o patrimônio afro-brasileiro de forma mais intensa através da metodologia da educação patrimonial, a qual nos referimos como “educação afro-patrimonial” tendo como finalidade distanciar a história do negro “do ponto de vista oficial”, na qual Rita Amaral diz estar representada como “(...) uma história de escravos, que muitas vezes escamoteia significados e interpreta mais do que explica” (2001, p. 2)

Através do uso dos bens culturais, produzidos pelos africanos e afrodescendentes, abordados dentro da metodologia da educação patrimonial poderemos contribuir para a elaboração de um juízo crítico acerca do patrimônio afro-brasileiro e da sua identidade, incorporando-o dentro do processo de formação do individuo através de uma relação estabelecida.

A metodologia da educação afro-patrimonial (evidenciada pela observação, registro, exploração e apropriação) pode levar os professores a utilizarem os objetos nas salas de aula ou nos próprios lugares nos quais são encontrados, uma vez que nada substitui o objeto real como fonte de informação dentro do próprio contexto histórico. Partindo dos princípios metodológicos da educação patrimonial é que podemos utilizar a exposição como um recurso
para desenvolver a ação educativa.

2.1 - OS RESULTADOS DA EXPOSIÇÃO CURRICULAR: UM ESTUDO DE CASO
.
Expor é revelar, comungar, evidenciar elementos que
politicamente precisam ser explicitados, em uma perspectiva
relacionada a um momento histórico, uma produção estética,
um ideal político.
Marcelo Cunha

A exposição curricular, HERANÇA QUE NÃO CALA: TERREIRO FILHOS DE OBÁ, projetada pelos alunos da turma 2008/1, nos possibilitou a presente reflexão acerca da sua abordagem enquanto ferramenta metodológica para o desenvolvimento da educação afropatrimonial. Desenvolvida como uma atividade curricular de avaliação, para a disciplina Museografia III, a mostra fotográfica teve como foco as celebrações religiosas organizadas pelo terreiro de candomblé Filhos de Oba, localizado na cidade de Laranjeiras.

Sob a orientação da Professora Bartolimara Daltro, os alunos tiveram como objetivo apresentar a comunidade acadêmica da Universidade Federal de Sergipe o patrimônio afrobrasileiro e a sua importância na constituição do patrimônio cultural sergipano.

A partir de um rico acervo, com fotografias da festa de São Lazaro e de Exu, a exposição produziu um discurso afirmativo que explicitou os valores religiosos da comunidade afrodescendente da cidade de Laranjeiras, fugindo da apresentação do negro subjugado e da religião relacionada historicamente a feitiçaria. Ainda acompanhando o acervo fotográfico, alguns objetos foram utilizados para compor a expografia do espaço, a exemplo das representações dos Orixás e dos Exus (representados através das pedras, dos fios de conta e dos ferros), atabaques e plantas medicinais usadas nos rituais do terreiro.

Tendo sua abertura no dia 21 de junho, as 18:00 horas, os alunos receberam a comunidade laranjeirense, em especial os filhos-de-santo, no Campus de Laranjeiras utilizando o recurso de sonorização do ambiente expositivo com toques de atabaques, possibilitando uma maior interação dos visitantes com a exposição.

Através dos recursos expográficos utilizados podemos enxergar de forma clara a sua contribuição para a “alfabetização cultural”, acerca do patrimônio afro-brasileiro, proporcionada pelo poder de comunicação e informação da exposição. O projeto expositivo proporcionou também:

Contribuição para o estreitamento das relações entre a comunidade laranjeirense, em
especial os praticantes das religiões de matrizes africanas, e a Universidade Federal de
Sergipe;

Apresentação do patrimônio afro-sergipano da cidade de Laranjeiras em sua dimensão
histórica e cultural;

Ressaltou a importância da valorização e preservação do Terreiro Filhos de Oba;
patrimônio afro-brasileiro;

Divulgou e apresentou o Curso de Museologia para a população de Laranjeiras
estabelecendo uma aproximação maior com o seu cotidiano.

Dentro da perspectiva da educação afro-patrimonial, e dos objetivos alcançados com a exposição, podemos concluir a sua importância para a compreensão do universo sociocultural do povo africano e afro-brasileiro proporcionado pelo desenvolvimento metodológico da educação patrimonial.

Neste sentido a exposição museológica Herança que não cala: Terreiro Filhos de Obá contribuiu positivamente à medida que ressaltou a importância da religião enquanto um bem cultural significativo na composição do patrimônio sergipano.

A presente atividade desenvolvida pelos alunos do curso de Museologia - bacharelado da Universidade de Federal de Sergipe demonstra a sua efetiva contribuição para a mudança do quadro político-cultural da cidade, estimulando a igualdade de direitos e respeito a diversidade, algo possibilitado pelo planejamento de suas atividades curriculares e de extensão.

NOTAS

REFERÊNCIAS
AMARAL, RITA A coleção etnográfica de cultura religiosa afro-brasileira do Museu de
Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Revista do Museu de Arqueologia e
Etnologia da USP, São Paulo, v. 10, 2001.
CORRÊA, Alexandre Fernandes. O Museu Mefistofélico e a distabuzação da magia: análise
do tombamento do primeiro patrimônio etnográfico do Brasil. São Luis/MA: EDUFMA,
2009, 192p.
CUNHA, Marcelo Nascimento Bernardo da. Museus, Exposições e Identidades: os desafios
do tratamento museológico do patrimônio afro-brasileiro. In:___BRUNO, C. O; FONSECA,
A. M. da; NEVES, K.R.F. (Org.)Museus como Agentes de Mudança Social e
Desenvolvimento. São Cristóvão: Museu de Arqueologia de Xingó, 2008.
DANTAS, Beatriz G. Vovó nagô e papai branco: usos e abusos da África no Brasil. Rio de
Janeiro: Graal, 1988.
HORTA, Maria de Lourdes Parreiras; Grunberg, Evelina e MONTEIRO, Adriane Queiroz.
Guia Básico de Educação Patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, Museu Imperial, 1999.
LODY, Raul. O negro no museu brasileiro: construindo identidades. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2005.
GUARNIERI, Waldisa Russio Camargo. Conceito de cultura e sua inter-relação com o
patrimônio cultural e a preservação. Cadernos Museológicos, v. 3, p. 7-12. 1990.
Universidade Federal de Sergipe. Pró-Reitoria de Graduação. DEAPE. Guia Acadêmico.
DEAPE. São Cristóvão: DEAPE, 2007. 37 p.