terça-feira, 3 de maio de 2011

Lista do patrimônio histórico em Sergipe

Confiram a sublista da lista do patrimônio histórico no Brasil para o estado de Sergipe (em fase de preenchimento - incompleta e verificar datas no site do IPHAN).


Município

Monumento ou obra

Esfera de tombamento

Uso atual

Ano do tombamento

Aracaju

Cemitério dos Naufrágos

Estadual

Cemitério

1973

Aracaju

Palmeiras Imperiais das Praças Fausto Cardoso e Olímpio Campos

Estadual

1979

Aracaju

Centro de Turismo - Antiga Escola Normal

Estadual

1984

Aracaju

Palácio Olímpio Campos

Estadual

1985

Aracaju

Catedral Metropolitana

Estadual

1985

Aracaju

Sede da Secretaria de Estado de Segurança Pública

Estadual

1985

Aracaju

Sede do Juizado de Menores

Estadual

1985

Aracaju

Carrosel do Tobias

Estadual

1987

Aracaju

Palácio Fausto Cardoso

Estadual

1987

Aracaju

Imóveis à Avenida Otoniel Dória n°s. 500, 506, 511, 520, 524 e 594

Estadual

1987

Aracaju

Painéis e Murais do Artista Jenner Augusto em Aracaju

Estadual

1988

Aracaju

Antigo Tribunal de Justiça

Estadual

1988

Aracaju

Imóvel à Av. Ivo do Prado n°. 1072

Estadual

1989

Aracaju

Arquivo Público Estadual

Estadual

1991

Aracaju

Antigo Tesouro do Estado

Estadual

1991

Aracaju

Antigo Farol

Estadual

1995

Aracaju

Delegacia do Ministério da Fazenda

Estadual

1996

Aracaju

Palácio Inácio Barbosa

Estadual

1997

Aracaju

Quartel Central da Polícia Militar do Estado de Sergipe

Estadual

2000

Aracaju

Acervo do Artista Horácio Hora

Estadual

2000

Aracaju

Colégio Nossa Senhora de Lurdes

Estadual

2002

Aracaju

Antiga Alfândega

Estadual

2003

Aracaju

Estação Rodoviária Governador Luiz Garcia

Estadual

2003

Aracaju

Imóvel à Praça Camerino n°. 225 - Sede da Superintendência do IPHAN em Sergipe

Estadual

2003

Aracaju

Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe

Estadual

2007

Aracaju

Instituto Parreiras Hortas

Estadual

2008

Brejo Grande

Canoa de Tolda Lusitânia

Federal

embaracação tradicional

2008

Carmópolis

Igreja de Nossa Senhora de Santana do Massacará

Estadual

Igreja

1994

Divina Pastora

Igreja Matriz de Divina Pastora

Federal

Igreja

1943

Estância

Sobrado à Praça Barão do Rio Branco

Federal

1967

Estância

Obras de talha de madeira da Igreja do Rosário

Estadual

1981

Estância

Conjunto de Casas e Sobrados com Fachadas Revestidas por Azulejos Portugueses

Estadual

Residencial e Comércios

1997

Estância

Instituto Nacional de Seguridade Social

Estadual

Institucional

1997

Estância

Sobrado à Rua Capitão Salomão n°. 162

Estadual

1997

Estância

Painel de Horácio Hora no Hospital Amparo de Maria

Estadual

2000

Itabaianinha

Casa Revestida por Antigos Azulejos Ingleses

Estadual

1987

Itabaianinha

Imóvel à Praça Olímpio Campos n° 176

Estadual

1987

Itaporanga d'Ajuda

Casa Grande e Capela do Antigo Engenho Colégio

Federal

Fazenda

1943

Lagarto

Imóvel à Praça Manoel Emílio de Carvalho

Estadual

1995

Laranjeiras

Conjunto Arquitetônico, Urbanístico e Paisagístico

Federal

Cidade Histórica

1993

Laranjeiras

Conjunto Arquitetônico

Estadual

Cidade Histórica

1971

Laranjeiras

Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus

Federal

Igreja

1943

Laranjeiras

Igreja da Comandaroba

Federal

Igreja

1943

Laranjeiras

Casa Grande e Capela de Santo Antônio do Antigo Engenho Retiro

Federal

1943

Laranjeiras

Capela do Antigo Engenho Jesus, Maria e José

Federal

Abandonado

1943

Laranjeiras

Terreiro Filhos de Obá

Estadual

Terreiro

1988

Laranjeiras

Gruta da Pedra Furada no povoado Machado

Estadual

1990

Maruim

Igreja de Nosso Senhor dos Passos

Estadual

Igreja

Neópolis

Igreja do Rosário

Estadual

Neópolis

Forum Municipal

Estadual

Nossa Senhora do Socorro

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Socorro

Federal

Igreja

1943

Porto da Folha

Igreja de São Pedro

Estadual

1984

Propriá

Sobrado à Avenida Graccho Cardoso n°, 584

Estadual

1995

Riachuelo

Capela do Antigo Engenho Penha

Federal

Abandonada

1943

Rosário do Catete

Sobrado à Rua Padre /rocha Villar n° 251

Federal

Abandonada

1943

Santa Luzia do Itanhy

Igreja Matriz

Estadual

Santa Luzia do Itanhy

Usian São Félix

Estadual e Municipal

Santo Amaro das Brotas

Igreja Matriz de Santo Amaro das Brotas

Federal

Igreja

1942

Santo Amaro das Brotas

Capela de Nossa Senhora da Conceição do Antigo Engenho Caieira

Federal

Capela

1943

São Cristóvão

Igreja e Convento de São Francisco e Ordem Terceira

Federal

Igreja e Museu de Arte Sacra

1941

São Cristóvão

Igreja Matriz de Nossa Senhora das Victórias

Federal

Igreja

1942

São Cristóvão

Conjunto Arquitetônico, Urbanístico e Paisagístico de São Cristóvão

Federal

Cidade Histórcica

1967

São Cristóvão

Cidade de São Cristóvão

Estadual

Cidade Histórico

1938

São Cristóvão

Igreja e Convento do Carmo

Federal

Igreja e Convento

1942

São Cristóvão

Igreja de Senhor dos Passos - Ordem Terceira do Carmo

Federal

Igreja

1942

São Cristóvão

Antiga Santa Casa e Igreja de Misericórdia

Federal

Lar Imaculada Conceição e Escola

1942

São Cristóvão

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

Federal

Igreja

1943

São Cristóvão

Igreja de Nossa Senhora do Amparo dos Homens Pardos

Federal

Igreja

1967

São Cristóvão

Sobrado do Balcão Corrido

Federal

Institucional e restaurante

1943

São Cristóvão

Sobrado à Rua das Flores - Atual R. Messias Prado

Federal

Restaurante

1943

São Cristóvão

Sobrado do IPHAN

Federal

Institucional

1943

São Cristóvão

Cristo Redentor

Municipal

2009

São Cristóvão

Museu Histórico de Sergipe

Estadual

2003

São Cristóvão

Capela de Nossa Senhora da Conceição do Antigo Engenho Poxim

Federal

1943

São Cristóvão

Capela de Sossa Senhora de Nazaré do Antigo Engenho Itaperoá

Estadual

Abandonada

1979

São Cristóvão

Telas de Horácio Hora do Museu Histórico de Sergipe

Estadual

2000

Simão Dias

Conjunto Arquitetônico da Praça Barão de Santa Rosa

Municipal

2005

Simão Dias

Memorial de Simão Dias

Estadual

2000

Tomar do Geru

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Socorro

Federal

Igreja

1942


Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre

sexta-feira, 29 de abril de 2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

CASARÕES DE ESTÂNCIA: PATRIMÔNIO ESQUECIDO


por Magno de Jesus em 28/03/2011


Muitos deles foram tombados pelo Estado. No entanto, isto não tem sido suficiente para melhorar a situação dos prédios.
Construções majestosas, de grande valor histórico, erguidas, em sua maioria, no século XIX, estão pedindo socorro, em Estância. Prédios como o da antiga Câmara de Vereadores, no centro da cidade, entre tantos outros exemplos, encontram-se em péssimo estado de conservação. Muitos chegaram a ser demolidos. Outros simplesmente foram ignorados, deixando em risco a identidade de um dos berços culturais de Sergipe.
“Vários casarios antigos, espalhados por toda a cidade, estão se acabando aos poucos. Muitos foram tombados, inclusive ilustram um dos catálogos do Governo do Estado, mas isto não tem sido suficiente. Deveria haver uma política forte, municipal, aliada à estadual, para impedir que coisas assim aconteçam. Em Alagoas, por exemplo, os prédios antigos são utilizados como museus. Aqui, acham que o bom mesmo é demolir”, destaca o radialista Magno de Jesus.


SÓ NO PAPEL

Acaba sendo irônico o fato de o Governo produzir um livro que reconhece a existência de monumentos importantes espalhados por Sergipe e ainda destacar que todos são ‘bens protegidos por lei e tombados através de decretos do (próprio) Estado’. Não é isto o que acontece na prática.

Fachadas com rachaduras, rebocos caindo e estrutura interior pra lá de comprometida são problemas comuns em todas as edificações antigas. “Na Praça Barão do Rio Branco, também no centro, já foram demolidos uns três grandes e importantes casarios. Em um desses momentos, eu estava passando e vi que o pedreiro retirava os azulejos, de origem portuguesa, para vender a outra pessoa. É um absurdo”, denuncia Magno.

O radialista acrescenta que o prédio da antiga Câmara começou a ser demolido pelos fundos. O jornal local divulgou a notícia, a prefeitura tomou conhecimento e interditou a área. “As ruas capitão Salomão e Pernambuquinho também abrigam vários prédios. São todos muito lindos, porém esquecidos. A destruição vem sendo total, infelizmente”, destaca a dona de casa Maria Alves Santos, 32.

Até o fechamento desta matéria, a reportagem não conseguiu contato com a Prefeitura de Estância nem com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico nacional – IPHAN – para conversar sobre o assunto. (Edição nº 28/03 a 03 de abril de 2011).

domingo, 20 de março de 2011

A EDUCAÇÃO AFRO-PATRIMONIAL E A EXPOSIÇÃO COMO MÉTODO PARA O SEU DESENVOLVIMENTO


Autoria: João Paulo Cardoso da Silva, Graduando em Museologia pela UFS

Cláudio de Jesus Santos, Formando em Museologia pela UFS



As questões pertinentes a preservação do patrimônio cultural sempre foi uma preocupação constante e marcante dentro do campo da ciência museológica, podendo ser melhor compreendida na caracterização do fato museológico, o qual Waldisa Russio define como sendo “a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da Realidade à qual o Homem pertence e sobre a qual tem o poder de agir” (1990, p.7). É importante salientarmos que a noção de “Objeto” explicitada por Russio refere-se a todos os bens culturais produzidos e transformados pelo homem, não se prendendo a uma visão reducionista do conceito.

Diante dessa relação, torna-se importante ressaltar que a expressão Educação Patrimonial vem se tornando cada vez mais usual na Museologia, sendo utilizada muitas vezes como a sua “porta de entrada” para o desenvolvimento dos seus trabalhos, uma vez que o seu objetivo é preservar. Nesse sentido, vale lembrar que, não foi por acaso que o 1º Seminário organizado para discutir o desenvolvimento das ações educacionais voltadas para o uso e apropriação dos bens culturais e a sua proposta metodológica se deu no âmbito do Museu Imperial de Petrópolis em 1983, no Rio de Janeiro (HORTA, 1999).

A partir do Seminário realizado vários trabalhos vêm sendo elaborados, no sentido de dar continuidade as discussões para o aprimoramento dos recursos metodológicos utilizados para a preservação, identificação e valorização do Patrimônio Cultural através da Educação Patrimonial, conceito o qual Maria de Lourdes Parreiras Horta define como,

(...) um instrumento de “alfabetização cultural” que possibilita ao indivíduo fazer leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórico-temporal em que está inserido. Este processo leva ao reforço da auto-estima dos indivíduos e comunidades e a valorização da cultura brasileira, compreendida como múltipla e plural (1999, p.6).

Por meio dessa definição e entendendo que a metodologia da Educação Patrimonial pode ser aplicada a qualquer evidencia material, a fim de alfabetizar culturalmente o individuo, aumenta-se a dificuldade dessa alfabetização tornando-se mais complexa quando tratamos da cultura material pertencentes a grupos étnico-racialmente excluídos historicamente, grupos que sofreram e ainda sofrem perseguições, algo que pode ser percebido principalmente no trato com as suas heranças, as quais segundo Raul Lody sempre foram:

(...) comodamente vistas como secundárias e inferiores, (...) ficaram caracterizadas, em especial as de função ritual religiosa, genericamente como fetiches ou objetos de feitiçaria. Essas categorias, abastecidas de elementos da dominação moral cristã, delimitam a cultura material de sofisticados grupos sociais como dos candomblés, xangôs, casas mina-jejê e mina-nagô (2005, p.21).

Partindo da necessidade da distabuzação (CORRÊA, 150), do esclarecimento e da mudança desse pensamento construído sob os arquétipos históricos do negro enquanto escravo, é que torna-se necessário explorar o patrimônio afro-brasileiro de forma mais intensa através da metodologia da educação patrimonial, a qual nos referimos como “educação afro-patrimonial” tendo como finalidade distanciar a história do negro “do ponto de vista oficial”, na qual Rita Amaral diz estar representada como “(...) uma história de escravos, que muitas vezes escamoteia significados e interpreta mais do que explica” (2001, p. 2)

Através do uso dos bens culturais, produzidos pelos africanos e afrodescendentes, abordados dentro da metodologia da educação patrimonial poderemos contribuir para a elaboração de um juízo crítico acerca do patrimônio afro-brasileiro e da sua identidade, incorporando-o dentro do processo de formação do individuo através de uma relação estabelecida.

A metodologia da educação afro-patrimonial (evidenciada pela observação, registro, exploração e apropriação) pode levar os professores a utilizarem os objetos nas salas de aula ou nos próprios lugares nos quais são encontrados, uma vez que nada substitui o objeto real como fonte de informação dentro do próprio contexto histórico. Partindo dos princípios metodológicos da educação patrimonial é que podemos utilizar a exposição como um recurso para desenvolver a ação educativa.

REFERÊNCIAS

AMARAL, RITA A coleção etnográfica de cultura religiosa afro-brasileira do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, São Paulo, v. 10, 2001.

CORRÊA, Alexandre Fernandes. O Museu Mefistofélico e a distabuzação da magia: análise do tombamento do primeiro patrimônio etnográfico do Brasil. São Luis/MA: EDUFMA, 2009, 192p.

CUNHA, Marcelo Nascimento Bernardo da. Museus, Exposições e Identidades: os desafios do tratamento museológico do patrimônio afro-brasileiro. In:___BRUNO, C.

O; FONSECA, A. M. da; NEVES, K.R.F. (Org.)Museus como Agentes de Mudança Social e Desenvolvimento. São Cristóvão: Museu de Arqueologia de Xingó, 2008.

DANTAS, Beatriz G. Vovó nagô e papai branco: usos e abusos da África no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

HORTA, Maria de Lourdes Parreiras; Grunberg, Evelina e MONTEIRO, Adriane Queiroz. Guia Básico de Educação Patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Museu Imperial, 1999.

LODY, Raul. O negro no museu brasileiro: construindo identidades. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

GUARNIERI, Waldisa Russio Camargo. Conceito de cultura e sua inter-relação com o patrimônio cultural e a preservação. Cadernos Museológicos, v. 3, p. 7-12. 1990.

HERANÇA QUE NÃO CALA: TERREIRO FILHOS DE OBÁ... A EXPOSIÇÃO COMO FORMA DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO AFRO-PATRIMONIAL

Autoria:
João Paulo Cardoso da Silva
Graduando em Museologia da UFS
E-mail: João-paulo-cardoso@hotmail.com
Cláudio de Jesus Santos
Formando em Museologia pela UFS
Foi-se o tempo em que os bens culturais, produzidos pelos negros, eram considerados coisas
de preto, pois foram colocados em exposição nos museus etnográficos europeus como elementos demonstrativos de inferioridade cultural. Exemplo de que isso vem mudando, são os trabalhos produzidos no Brasil, a fim de valorizar e preservar o patrimônio afro-brasileiro, ações que podem ser melhor entendidas no campo da Educação afro-patrimonial. É dentro desta perspectiva, no campo da educação patrimonial, que analisaremos a exposição HERANÇA QUE NÃO CALA: TERREIRO FILHOS DE OBÁ, realizada pelos alunos do Curso de Museologia do 5º período como pré-requisito de avaliação para a disciplina Museografia III, coordenada pela Professora Bartolimara Daltro. O trabalho tenciona abordardos resultados alcançados com a exposição e a sua contribuição para uma possível aproximação do Campus de Laranjeiras da Universidade Federal de Sergipe e a comunidade laranjeirense.

Vale lembrar que essa é uma das ações promovidas pelo curso de Museologia, sendo desenvolvida como parte integrante do processo de formação dos seus discentes, já tendo em seu histórico a primeira atividade desse cunho, realizada pela turma pioneira 2007/1 com a exposição LARANJEIRAS EM VERSOS, CORES E PATRIMÔNIO, orientada pela Professora Drª. Rita Maia, no período 2009/1.

Tais atividades, realizadas pelo Núcleo de Museologia, vem demonstrando o compromisso com o objetivo do curso, o de “formar profissionais para atuarem no desenvolvimento dos processos de musealização em todas as instituições comprometidas com a preservação e a divulgação do patrimônio cultural” (GUIA ACADÊMICO 2007, p. 9).

1 - TERREIRO FILHOS DE OBÁ: UMA BREVE APRESENTAÇÃO

O Terreiro “Filhos de Obá” se destaca por ser considerado um terreiro-matriz, pois dele foram originados vários outros centros em Laranjeiras. Fundado por Maria Joaquina, escrava africana que veio da cidade de Obá (nagô), o terreiro não tem nenhum documento que possa comprovar a quanto tempo existe. Mas, segundo os atuais responsáveis, e os relatos dos habitantes mais antigos do município, o centro tem muito mais de 100 anos. Quando foi criado, o terreiro era somente Nagô. Mas, a partir do momento em que o babalorixá Alexandre virou líder da sociedade, atualizou a tradição inicial com as outras nações africanas (jeje, ketu, angola, entre outras).

Em 1910, Joaquina fundou a Sociedade de Culto Afro-brasileiro Filhos de Obá, que só foi reconhecida como entidade civil em 1947, quando o então substituto de Joaquina, Alexandre José da Silva, seu afilhado, registra em cartório o seu centro de culto, cuja finalidade era “praticar a caridade, desenvolver o lado espiritual dentro dos conceitos dos rituais afrobrasileiros,
e beneficiar todos os necessitados dentro e fora da sede” (DANTAS, 1988, p. 122). Ao registrar os “Filhos de Obá” como instituição, Alexandre tentava escapar das repressões sofridas pelas perseguições policiais (décadas de 30 e 40) que atingiram vários terreiros da cidade.

Alexandre tinha somente 13 anos quando assumiu os cuidados da sociedade, em 17 de janeiro de 1977 e foi durante sua liderança que o centro mais cresceu e teve representatividade na cidade. Ficou no comando até sua morte. Com o falecimento do babalorixá1, a sociedade ficou sem funcionar até 1993, quando a sobrinha e equedi2 Marieta Santos Chagas da Rocha assumiu a direção. Durante o período do fechamento da sociedade, o terreiro continuou a funcionar normalmente sob a orientação de “Dona Cecilinha”, até sua morte no final dos anos 80. Atualmente, quem dirige o centro é a ialorixá3 Ginalva Rocha dos Santos.


2 - A EDUCAÇÃO AFRO-PATRIMONIAL E A EXPOSIÇÃO COMO MÉTODO
PARA O SEU DESENVOLVIMENTO

As questões pertinentes a preservação do patrimônio cultural sempre foi uma preocupação constante e marcante dentro do campo da ciência museológica, podendo ser melhor compreendida na caracterização do fato museológico, o qual Waldisa Russio define como sendo “a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da Realidade à qual o Homem pertence e sobre a qual tem o poder de agir” (1990, p.7). É importante salientarmos que a noção de “Objeto” explicitada por Russio refere-se a todos os bens culturais produzidos e transformados pelo homem, não se prendendo a uma visão reducionista do conceito.

Diante dessa relação, torna-se importante ressaltar que a expressão Educação Patrimonial vem
se tornando cada vez mais usual na Museologia, sendo utilizada muitas vezes como a sua “porta de entrada” para o desenvolvimento dos seus trabalhos, uma vez que o seu objetivo é preservar. Nesse sentido, vale lembrar que, não foi por acaso que o 1º Seminário organizado para discutir o desenvolvimento das ações educacionais voltadas para o uso e apropriação dos bens culturais e a sua proposta metodológica se deu no âmbito do Museu Imperial de Petrópolis em 1983, no Rio de Janeiro (HORTA, 1999).

A partir do Seminário realizado vários trabalhos vêm sendo elaborados, no sentido de dar continuidade as discussões para o aprimoramento dos recursos metodológicos utilizados para a preservação, identificação e valorização do Patrimônio Cultural através da Educação Patrimonial, conceito o qual Maria de Lourdes Parreiras Horta define como,

(...) um instrumento de “alfabetização cultural” que possibilita ao indivíduo fazer leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórico-temporal em que está inserido. Este processo leva ao reforço da auto-estima dos indivíduos e comunidades e a valorização da cultura brasileira, compreendida como múltipla e plural (1999, p.6).

Por meio dessa definição e entendendo que a metodologia da Educação Patrimonial pode ser aplicada a qualquer evidencia material, a fim de alfabetizar culturalmente o individuo, aumenta-se a dificuldade dessa alfabetização tornando-se mais complexa quando tratamos da cultura material pertencentes a grupos étnico-racialmente excluídos historicamente, grupos que sofreram e ainda sofrem perseguições, algo que pode ser percebido principalmente no trato com as suas heranças, as quais segundo Raul Lody sempre foram:

(...) comodamente vistas como secundárias e inferiores, (...) ficaram caracterizadas, em especial as de função ritual religiosa, genericamente como fetiches ou objetos de feitiçaria. Essas categorias, abastecidas de elementos da dominação moral cristã, delimitam a cultura material de sofisticados grupos sociais como dos candomblés, xangôs, casas mina-jejê e mina-nagô (2005, p.21).

Partindo da necessidade da distabuzação (CORRÊA, 150), do esclarecimento e da mudança desse pensamento construído sob os arquétipos históricos do negro enquanto escravo, é que torna-se necessário explorar o patrimônio afro-brasileiro de forma mais intensa através da metodologia da educação patrimonial, a qual nos referimos como “educação afro-patrimonial” tendo como finalidade distanciar a história do negro “do ponto de vista oficial”, na qual Rita Amaral diz estar representada como “(...) uma história de escravos, que muitas vezes escamoteia significados e interpreta mais do que explica” (2001, p. 2)

Através do uso dos bens culturais, produzidos pelos africanos e afrodescendentes, abordados dentro da metodologia da educação patrimonial poderemos contribuir para a elaboração de um juízo crítico acerca do patrimônio afro-brasileiro e da sua identidade, incorporando-o dentro do processo de formação do individuo através de uma relação estabelecida.

A metodologia da educação afro-patrimonial (evidenciada pela observação, registro, exploração e apropriação) pode levar os professores a utilizarem os objetos nas salas de aula ou nos próprios lugares nos quais são encontrados, uma vez que nada substitui o objeto real como fonte de informação dentro do próprio contexto histórico. Partindo dos princípios metodológicos da educação patrimonial é que podemos utilizar a exposição como um recurso
para desenvolver a ação educativa.

2.1 - OS RESULTADOS DA EXPOSIÇÃO CURRICULAR: UM ESTUDO DE CASO
.
Expor é revelar, comungar, evidenciar elementos que
politicamente precisam ser explicitados, em uma perspectiva
relacionada a um momento histórico, uma produção estética,
um ideal político.
Marcelo Cunha

A exposição curricular, HERANÇA QUE NÃO CALA: TERREIRO FILHOS DE OBÁ, projetada pelos alunos da turma 2008/1, nos possibilitou a presente reflexão acerca da sua abordagem enquanto ferramenta metodológica para o desenvolvimento da educação afropatrimonial. Desenvolvida como uma atividade curricular de avaliação, para a disciplina Museografia III, a mostra fotográfica teve como foco as celebrações religiosas organizadas pelo terreiro de candomblé Filhos de Oba, localizado na cidade de Laranjeiras.

Sob a orientação da Professora Bartolimara Daltro, os alunos tiveram como objetivo apresentar a comunidade acadêmica da Universidade Federal de Sergipe o patrimônio afrobrasileiro e a sua importância na constituição do patrimônio cultural sergipano.

A partir de um rico acervo, com fotografias da festa de São Lazaro e de Exu, a exposição produziu um discurso afirmativo que explicitou os valores religiosos da comunidade afrodescendente da cidade de Laranjeiras, fugindo da apresentação do negro subjugado e da religião relacionada historicamente a feitiçaria. Ainda acompanhando o acervo fotográfico, alguns objetos foram utilizados para compor a expografia do espaço, a exemplo das representações dos Orixás e dos Exus (representados através das pedras, dos fios de conta e dos ferros), atabaques e plantas medicinais usadas nos rituais do terreiro.

Tendo sua abertura no dia 21 de junho, as 18:00 horas, os alunos receberam a comunidade laranjeirense, em especial os filhos-de-santo, no Campus de Laranjeiras utilizando o recurso de sonorização do ambiente expositivo com toques de atabaques, possibilitando uma maior interação dos visitantes com a exposição.

Através dos recursos expográficos utilizados podemos enxergar de forma clara a sua contribuição para a “alfabetização cultural”, acerca do patrimônio afro-brasileiro, proporcionada pelo poder de comunicação e informação da exposição. O projeto expositivo proporcionou também:

Contribuição para o estreitamento das relações entre a comunidade laranjeirense, em
especial os praticantes das religiões de matrizes africanas, e a Universidade Federal de
Sergipe;

Apresentação do patrimônio afro-sergipano da cidade de Laranjeiras em sua dimensão
histórica e cultural;

Ressaltou a importância da valorização e preservação do Terreiro Filhos de Oba;
patrimônio afro-brasileiro;

Divulgou e apresentou o Curso de Museologia para a população de Laranjeiras
estabelecendo uma aproximação maior com o seu cotidiano.

Dentro da perspectiva da educação afro-patrimonial, e dos objetivos alcançados com a exposição, podemos concluir a sua importância para a compreensão do universo sociocultural do povo africano e afro-brasileiro proporcionado pelo desenvolvimento metodológico da educação patrimonial.

Neste sentido a exposição museológica Herança que não cala: Terreiro Filhos de Obá contribuiu positivamente à medida que ressaltou a importância da religião enquanto um bem cultural significativo na composição do patrimônio sergipano.

A presente atividade desenvolvida pelos alunos do curso de Museologia - bacharelado da Universidade de Federal de Sergipe demonstra a sua efetiva contribuição para a mudança do quadro político-cultural da cidade, estimulando a igualdade de direitos e respeito a diversidade, algo possibilitado pelo planejamento de suas atividades curriculares e de extensão.

NOTAS

REFERÊNCIAS
AMARAL, RITA A coleção etnográfica de cultura religiosa afro-brasileira do Museu de
Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Revista do Museu de Arqueologia e
Etnologia da USP, São Paulo, v. 10, 2001.
CORRÊA, Alexandre Fernandes. O Museu Mefistofélico e a distabuzação da magia: análise
do tombamento do primeiro patrimônio etnográfico do Brasil. São Luis/MA: EDUFMA,
2009, 192p.
CUNHA, Marcelo Nascimento Bernardo da. Museus, Exposições e Identidades: os desafios
do tratamento museológico do patrimônio afro-brasileiro. In:___BRUNO, C. O; FONSECA,
A. M. da; NEVES, K.R.F. (Org.)Museus como Agentes de Mudança Social e
Desenvolvimento. São Cristóvão: Museu de Arqueologia de Xingó, 2008.
DANTAS, Beatriz G. Vovó nagô e papai branco: usos e abusos da África no Brasil. Rio de
Janeiro: Graal, 1988.
HORTA, Maria de Lourdes Parreiras; Grunberg, Evelina e MONTEIRO, Adriane Queiroz.
Guia Básico de Educação Patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, Museu Imperial, 1999.
LODY, Raul. O negro no museu brasileiro: construindo identidades. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2005.
GUARNIERI, Waldisa Russio Camargo. Conceito de cultura e sua inter-relação com o
patrimônio cultural e a preservação. Cadernos Museológicos, v. 3, p. 7-12. 1990.
Universidade Federal de Sergipe. Pró-Reitoria de Graduação. DEAPE. Guia Acadêmico.
DEAPE. São Cristóvão: DEAPE, 2007. 37 p.

sábado, 10 de abril de 2010

A MUSEALIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO SAGRADO: O EX-VOTO COMO RESULTADO DA PROMESSA ALCANÇADA*




A Procissão do Senhor dos Passos pode ser compreendida como um elemento significativo na composição do Patrimônio cultural sergipano, manifestada na teatralização do seu ritual e concretizada na produção dos seus ex-votos musealizados no santuário da Igreja do Carmo Menor, espaço concebido como um museu.
Para entender com amplitude a importância da Procissão, mais especificamente os ex-votos, a partir de um olhar patrimonial é imprescindível esclarecer alguns conceitos aqui utilizados. Sendo o primeiro deles o de patrimônio.
De acordo com Françoise Choay, numa definição clássica relacionada à origem da palavra, é possível defini-la a partir de sua ligação com as estruturas familiares, econômicas e jurídicas de uma sociedade estável, enraizada no tempo e no espaço. Sendo hoje requalificada por diversos adjetivos (CHOAY, 2001).
É dentro dessa requalificação que se insere o adjetivo de patrimônio cultural, termo emergente, o qual está relacionado ao

[...] legado que recebemos do passado, vivemos no presente e transmitimos às futuras gerações (...) fonte insubstituível de vida e inspiração, nossa pedra de toque, nosso ponto de referência, nossa identidade, sendo de fundamental importância para a memória, a criatividade dos povos e a riqueza das culturas (UNESCO, 2007).

Partindo dessa definição de patrimônio cultural, podemos então perceber a importância da preservação dos ex-votos, entendidos como um testemunho de dimensão social relacionado à fé católica. Resultado de uma promessa cumprida em troca de uma graça alcançada.
Para o Museólogo José Cláudio Alves de Oliveira, professor do Departamento de Museologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador do projeto Ex-votos do Brasil

[...] os ex-votos [...] são documentos. Exposições provocadas por todo o tipo de pessoas- camponeses, trabalhadores, desempregados, turistas, estudantes, ricos e pobres. Refletem a crença, a fé e as atitudes do homem da vida, da doença, da morte, da ambição, da festa, de variados valores sociais, políticos e econômicos. Ao manter (e atualizar) a tradição, essas pessoas se espelham no costume de ir a um ambiente do povo rezar e fazer a desobriga (OLIVEIRA, 2009, p.31)

Daí se explica a importância da sua musealização, como forma de capturar essa realidade, a qual, por definição, segundo Waldisa Rússio (199?), implica na preservação dos testemunhos do homem e do seu meio, traços, vestígios ou resíduos que tenham significação, preocupando-se com a informação trazida pelos objetos em termos de documentalidade e testemunhalidade.
Sob a ótica de Ivo Maroevic (1997), a razão da musealização do patrimônio cultural é movida pelo valor da musealidade, representada pela propriedade que tem um objeto material de documentar uma realidade, através de outra realidade: no presente, é documento do passado, no museu é documento do mundo real, no interior de um espaço é documento de outras relações espaciais.
Sendo assim, ao reconhecer a importância da preservação dos ex-votos dentro da sua realidade, que se concretiza com a sua musealização, a Ordem Terceira do Carmo não está preservando apenas a materialidade das promessas alcançadas por parte dos romeiros da Procissão do Senhor dos Passos – ainda que seja essa a primeira intenção –, ela preserva também juntamente com os ex-votos toda a imaterialidade dos traços culturais do povo sergipano que se manifesta através da sua devoção a um patrimônio que também é sagrado.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHOAY, Françoise. (2001). A Alegoria do patrimônio. São Paulo: Ed.UNESP

MAROEVIC, Ivo. O papel da musealidade na preservação da memória. Tradução Tereza Scheiner. Texto apresentado no Congresso Anual do ICOFOM – Museologia e Memória. Paris, Zegred, 18 de Febrero de 1997.

OLIVEIRA, José Cláudio Alves de. Forma e conteúdo. Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 4, nº 41, fev. 2009, p. 30-31.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA (2007). Disponível em: . Acesso em: 20 mar. 2010.

RUSSIO, Waldisa. Conceito de Cultura e a sua inter-relação com o patrimônio cultural e a preservação. Instituto de Museologia de São Paulo – FESP. (199?)

*Capítulo do Artigo DA TEATRALIZAÇÃO A MUSEALIZAÇÃO DA FÉ: A PROCISSÃO DO SENHOR DOS PASSOS EM SÃO CRISTÓVÃO/SE apresentado na VII Semana de Ciêcias Sociais da UFS. Realizada entre os dias 13 e 16 de Abril de 2010.